Mesmo quando são pertinentes, as
críticas acabam por evidenciar os erros e defeitos do parceiro ou da relação e
não ajudam a encontrar soluções ou caminhos mais confortáveis para o que não
vai bem na vida em comum. Não é preciso fazer vista grossa ao que incomoda, mas
vale a pena dirigir o foco também para o que é bom e, assim, valorizá-lo.
Celebrar as trevas não leva a lugar nenhum.
Muitos acreditam que perceber defeitos
é evidência de sua inteligência. Mas o olhar que se volta para a falha e que
nela se especializa nada mais faz do que promovê-la. Ser emocionalmente
inteligente e maduro, sensato, generoso,capacitado para as relações requer, na
verdade, outra habilidade, a de perceber e grifar o bom.
A experiência clínica me ensinou e a
vida confirma que a consciência dos recursos que permanecem íntegros no sistema
conjugal é o que capacita um casal a dar conta de suas dificuldades. O foco no
que está (ou parece estar) disfuncional só contribui para o agravamento dos
problemas, além de promover terrível sentimento de impotência. Para que se
sintam potentes, é preciso que as pessoas se reconheçam como preenchidas de
recursos, habilidades, talentos, força, discernimento e otimismo em relação ao
desenlace positivo que os conflitos podem ter. quando se aposta no bom,
promove-se o bom. Quando em nome da esperteza e da segurança, o ruim e o errado
são enfatizados, erguem-se muralhas impeditivas á preservação do vínculo e ao desenvolvimento
da experiência amorosa. Um único gesto de compaixão, de compreensão e de perdão
tem maior potencial construtivo que mil críticas, por mais pertinentes que
possam ser.
Um conto árabe revela como, ao longo
de 1001, noites Sherazade foi capaz de preservar acesa a chama de uma relação
conjugal e de demover seu parceiro, o rei Shariar, do intento de matá-la. Ele
dera cabo de todas as parceiras anteriores e pretendia matar quantas mais
viesse a ter, em represália á traição sofrida por parte da primeira esposa.
Sherazade o entretinha com histórias fascinantes, que interrompia a certa
altura para retomar depois.
Esse enredo retrata uma dinâmica
interna comum a todos nós e nos alerta para o perigo de descuidar dos rumos que
a vida pode tomar, além de apontar um caminho possível para a superação das
dificuldades. O rei personifica a sede de vingança, a ausência de reflexão, a
dificuldade de lidar com conflitos traços que podem estar presentes em todas as
pessoas. Para fazer frente a esse espírito assassino (que, aliás, gosta de se disfarçar
de “crítico esperto”), nossa psique dispõe de uma Sherazade (não por acaso, uma
força masculina imatura, destrutiva, de um lado, e seu contraponto, de outro:
uma disposição feminina cuidadosa, criativa, preservadora).
Depende de cada um de nós a escolha
de qual dessas dimensões deverá preponderar em nossa psique e permear nossos
posicionamentos em relações amorosas. O rei, a um só tempo arrogante e
despreparado, pode ser tocado e humanizado por um feminino habilidoso como
Sherazade, sem que para isso devam existir acusações, julgamentos ou punições.
Uma vez que Sherazade e Shariar são imagens arquetípicas, eles habitam
igualmente psiques de homens e de mulheres, bem como de casais, na qualidade de
sistemas psíquicos. Pois bem: mil vezes uma Sherazade sábia do que um Shariar
espertinho.
No conto, o que sedimenta a nova
disposição do rei, promovida pela esposa, é a encantadora imagem das crianças
nascidas daquela união. O rei sequer se dera conta de que havia fertilizado a
esposa. Para além de qualquer dúvida, o que possibilitou a longevidade e a
qualidade do relacionamento foi a luz que incidiu sobre o bom e não a
celebração das trevas.
Alberto Lima, psicoterapeuta de orientação junguiana, é professor -doutor em Psicologia Clínica e autor de O Pai e a Psique e de Alma: Gênero e Grau.
Paz, Harmonia e LUZ!!
Elizabete Pereira dos Santos Gonçalves
Master Coach
38. 3531-9077

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